Será o fim da Democracia… no Brasil?

Perante o cenário político que vem se desenhando no Brasil nos últimos anos (a velha politicagem, a falta de perspectivas para os jovens, a crise econômica, desemprego, violência nas ruas, corrupção, etc), ainda mais acentuado nestas eleições, por conta das fake news nas redes sociais e os ‘exércitos’ de defensores de determinados candidatos, uma pergunta paira no ar: será caminhamos para o fim da nossa Democracia?

Há quem diga que sim. Como é o caso do empresário Rodrigo Tavares, presidente e fundador da Granito Group, que em um artigo publicado na Folha da São Paulo, nesta sexta-feira (19/10) aponta grupos formados no WhatsApp e nas redes sociais, como disseminadores, sem filtro, de ‘ideias insensatas‘, a favor de Bolsonaro, por exemplo. “É uma especie de ditadura cibernética“, classifica ele, ao apontar alguns fatores específicos que explicam como um ‘político abrutalhado‘ como o candidato do PSL, ganhou tamanha projeção nacional em tão pouco tempo.

Nossas opções para para gerenciar o país estão limitadas a: um militar, considerado ‘linha dura’. Já se envolveu em posições racistas e contra mulheres, por exemplo. O outro, chegou a defender a reforma Constituinte e o controle dos meios de comunicação. Ambos, negam.

E será que o povo continuará tendo o direito de se manifestar livremente? (Imagem: Internet)

Por sua vez, Jair Bolsonaro, em seu site oficial, se define por suas posições “em defesa da família, da soberania nacional, do direito à propriedade e dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”. Sua bandeira ideológica é logicamente combatida pelos partidos de esquerdista.

Fernando Haddad, se coloca como candidato do povo. Porém, sequer faz a chamada ‘meia culpa’ pela devastadora corrupção de que é acusado seu grupo político, que praticamente quebrou o país nos últimos anos.

Tudo que esperamos é que, após o dia 28, sendo eleito um ou outro, não se estabeleça no país, o regime da opressão. Como aconteceu do início dos anos 1960 até a metade da década de 80.

Na real, atualmente aqui no Brasil, a maioria das pessoas escolhe votar em determinado candidato, muito mais por surfar na onda de cabos eleitorais fanáticos, do quê pela ideia própria ou noção do plano de governo do postulante ao cargo. E depois, todos nós sofremos as consequências. 

Também nesta sexta (19/10), li uma entrevista do professor de Ciência Política da Universidade Harvard e especialista em Democracia na América LatinaSteven Levitsky, concedida à BBC News Brasil, numa reportagem de Renata Moura, na qual, ele faz colocações assustadoras.

Levitsky é um dos autores do livro Como as Democracias Morrem, em parceria com seu colega de Harvard, Daniel Ziblatt. Na reportagem ele afirma que ‘as democracias morrem por ataques sutis e sistemáticos contra as instituições‘.

(Foto: Divulgação) 

De olho no Brasil, ele analisou as respectivas posturas dos dois candidatos à Presidência da República, os quais receberão os votos dos eleitores no próximo dia 28.

Confira abaixo trechos relevantes da entrevista. Para ler a íntegra, clique aqui.

BBC News Brasil – Por que eleitores, em diversos países do mundo, estão votando em candidatos radicais?

Steven Levitsky – Isso não acontece muito frequentemente. Ocorreu nos Estados Unidos porque os americanos acham que a democracia estará sempre assegurada. Não importa se formos descuidados, não importa quem elejamos, ninguém conseguirá ferir nossa democracia. É um evento assombroso os americanos terem eleito alguém que não demonstra respeito pela Constituição.
Na maioria das vezes, o povo não gosta de autoritarismo e não vota em populistas.
Mas, às vezes, isso acontece porque os eleitores estão bravos com o status quo, com os partidos políticos e com a classe política em geral. Um populista é alguém que basicamente promete colocar tudo isso em um saco para jogá-lo no rio.
Quando eleito, ele passa a atacar as instituições democráticas. Há muitos exemplos no mundo, e o Brasil é um deles.

BBC News Brasil – De que maneira a onda conservadora que se vê nos Estados Unidos e parte da Europa está impactando o Brasil?

Levitsky – Eu ainda não tenho certeza como podemos conectar o fenômeno Bolsonaro com outros populistas de direita, como (Donald) Trump (nos EUA), (Viktor) Orban (na Hungria), ou outros da Europa. A causa principal do avanço da direita nos países ricos é a diversidade. É uma reação à imigração por parte dos (cidadãos) brancos, de direita não-liberal.
Há um pouco disso no Brasil, mas é muito diferente.
Eu não colocaria Bolsonaro no mesmo grupo. Mas, ainda que não seja a mesma coisa, ele se identifica com isso, e você percebe um apoio transnacional à sua candidatura.
São ideias e práticas que 15, 20 anos atrás seriam rejeitadas pelo establishment e que agora estão se tornando aceitáveis. Meu maior medo é que violações de direitos humanos que tinham sido eliminadas na América do Sul possam se tornar aceitáveis de novo.

BBC News Brasil – Os eleitores brasileiros parecem mais preocupados com problemas do dia a dia, do que com a ideia abstrata de uma ameaça à democracia. De que maneira um ataque às instituições poderia afetar a vida da população?

Levitsky – Não iria afetar muito a vida dos homens de negócio ricos de São Paulo, pelo menos não inicialmente, mas iria afetar imediatamente a vida de milhões e milhões de brasileiros que podem ser considerados vulneráveis socialmente… (a sequência da pergunta e resposta inteira, continuam na entrevista completa)

BBC News Brasil – Quais as principais diferenças entre o que se vê no Brasil e em outros países?

Levitsky – O Brasil passa por uma crise muito pior do que Suécia, França, Hungria ou Estados Unidos. Nos Estados Unidos, você tem uma parcela muito grande da população que resiste ao fato de que a sociedade vai se tornar mais diversa etnicamente.
Mas o Brasil está sofrendo uma crise de, pelo menos, duas dimensões: a pior recessão na história do país e o maior escândalo de corrupção entre todos os países democráticos.
Eu acho que o avanço da direita no Brasil se deu porque o governo era de esquerda e é visto com o responsável pela crise.

BBC News Brasil – Há uma percepção do eleitorado brasileiro de que Fernando Haddad, do PT, e Jair Bolsonaro, do PSL, são lados opostos de uma mesma radicalização e que ambos representariam ameaças à democracia. O senhor concorda com essa visão?

Levitsky – Absolutamente não. Não há dúvidas de que integrantes do PT radicalizaram o discurso desde a crise de 2016. Eu acho que o impeachment foi um erro terrível por parte da centro-direita. O impeachment e a exclusão da candidatura de Lula, definitivamente, contribuíram para isso.
Mas o PT é um partido institucionalizado, estabelecido e democrático. Nasceu em 1979 e, por quase 40 anos, jogou dentro das regras democráticas.
O PT governou o Brasil por 14 anos e, se você olhar para qualquer medida de democracia, o Brasil se mantém igualmente democrático, se não mais democrático do que antes.
O PT respeita a independência da Justiça e da imprensa. As eleições sempre foram livres. Se você olhar para o registro do PT no poder, verá que há muito erros, como a política fiscal e os casos de corrupção. Mas (daí a) chamar o PT de chavista, ou de autoritário…

BBC News Brasil – Por outro lado, o PT diz que Bolsonaro é fascista…

Levitsky – Eu acho que isso é um exagero. Penso que ele é claramente autoritário (e não fascista).

BBC News Brasil – O senhor falou anteriormente em chavismo. A situação política e econômica da Venezuela tem sido usada como um exemplo negativo pelos eleitores do Bolsonaro, já que o PT apoia o regime de Nicolás Maduro. Qual dos dois candidatos o senhor acha que tem mais proximidade com o chavismo?

Levitsky – Sem nenhuma dúvida, Bolsonaro. Populistas podem ser de direita, de esquerda, ou de centro.
Hugo Chávez era de esquerda e Bolsonaro não é. Ele não vai implementar a mesma política econômica, mas é uma ameaça populista para a democracia.
Muito frequentemente, quando um populista chega ao poder, você vê rapidamente uma crise institucional entre um presidente e o Congresso, o Judiciário, a imprensa.
E isso leva ao colapso da democracia. É o caso de Hugo Chávez, de Alberto Fujimori (ex-presidente do Peru), (Juan Domingo) Perón (ex-presidente da Argentina), Rafael Correa (ex-presidente do Equador), Evo Morales (presidente da Bolívia) e é claramente o caso de Bolsonaro.
Haddad está longe do populismo. Você pode discordar das suas políticas econômicas, mas ele não representa um projeto populista.

BBC News Brasil – Os partidos políticos tradicionais contribuíram para o quadro atual?

Levitsky – Quase sempre o autoritarismo chega ao poder em regimes democráticos, quando alguém do establishment abre a porta para ele, quando ele recebe ajuda, cooperação de um partido estabelecido. Mussolini recebeu o apoio dos liberais italianos; Hitler recebeu apoio dos conservadores alemães; Trump, do Partido Republicano; Hugo Chávez, de Rafael Caldera (ex-presidente da Venezuela), que o libertou da prisão.
Então, sempre tem pelo menos uma mão do establishment.
Eu acho que os políticos brasileiros fizeram um excelente trabalho em tentar isolar o Bolsonaro no primeiro turno, mas estão fazendo um trabalho muito pior agora, com algumas forças políticas apoiando o candidato do PSL, e isso pode ser um erro terrível.
O discurso de que Haddad e Bolsonaro representam um mesmo perigo é um mito e pode matar uma democracia que o Brasil lutou tanto para conquistar.

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